sábado, 21 de abril de 2007

Casas de Escritores




VITORINO NEMÉSIO





A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência.”













O Paço do Milhafre


À beira de água fiz erguer meu Paço
De Rei-Saudade das distantes milhas:
Meus olhos, minha boca eram as ilhas;
Pranto e cantiga andavam no sargaço.

Atlântico, encontrei no meu regaço
Algas corais, estranhas maravilhas!
Fiz das gaivotas minhas próprias filhas,
Tive pulmões nas fibras do mormaço.

Enchi infusas nas salgadas ondas
E oleiro fui que as lágrimas redondas
Por fora fiz de vidro e, dentro, de água.

Os vagalhões da noite me salvavam
E, com partes iguais de sal e mágoa,
Minhas altas janelas se lavavam.

O Bicho Harmonioso






MARGUERITE YOURCENAR




A casa de Marguerite Yourcenar - Northeast Harbor, Maine









Ninguém pintava melhor que Wang-Fô as montanhas a sair do nevoeiro, os lagos sobrevoados pelas libelinhas, e as enormes vagas do Pacífico vistas a partir da costa. Dizia-se que as suas imagens santas atendiam imediatamente qualquer prece; sempre que ele pintava um cavalo, tinha que o mostrar preso a uma estaca ou seguro pelas rédeas, pois se assim não fosse o cavalo escapava-se do quadro, a galope, e nunca mais ninguém lhe punha a vista em cima. Os ladrões não se atreviam a entrar em casa de quem possuísse um cão de guarda pintado por Wang-Fô.
Wang-Fô poderia ter sido rico,mas gostava mais de dar que de vender. Distribuía as pinturas que fazia por quem as apreciasse verdadeiramente, ou então trocava-as por uma tigela de comida.
A Fuga de Wang-Fô














MARGUERITE DURAS








“... é em casa que estamos verdadeiramente sós...”












Como é do conhecimento geral e se soube através da imprensa, restos humanos acabam por ser descobertos, um pouco por toda a parte, em França, em vagões de mercadorias.”
“O serviço de Medicina Legal da Prefeitura da Polícia permitiu descobrir que esses restos pertencem ao mesmo corpo. Com excepção da cabeça, que não foi encontrada, a reconstituição do corpo foi feita em Paris.”
“A rede ferroviária permitiu descobrir que os comboios que transportavam esses restos passaram, qualquer que fosse o seu destino, no mesmo local, a saber, o viaduto de Viorne. Chegando-se à conclusão que foram atirados do parapeito deste viaduto para os vagões, torna-se, portanto, provável que o crime tenha sido cometido na nossa comuna.”
A Amante Inglesa





Um dia no Paraíso


Visita realizada a Sintra em 29 de Abril de 2003



" Um jardim do paraíso terreal
que Salomão mandou aqui
a um rei de Portugal..."
Gil Vicente





"O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejante, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e, emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro..."
Os Maias, de Eça de Queirós






“O palácio do Imperador era o mais bonito do mundo, feito de porcelana tão delicada e frágil que só com muito cuidado se podia tocar-lhe. O jardim estava repleto de flores extraordinárias. Das mais raras pendiam campainhas de prata. Ninguém passava por ali sem as observar. No jardim estava tudo admiravelmente ordenado. Era tão extenso que nem mesmo o jardineiro sabia onde acabava. Depois de muito caminhar, chegava-se a um magnífico bosque com árvores muito altas e grandes lagos. O bosque continuava até ao mar, que era azul e profundo; por isso os navios que navegavam ao longo da costa se estendiam sobre a água. Naquelas árvores vivia um rouxinol, que cantava suavemente ...”
O Rouxinol do Imperador, de Andersen







Foi em convívio com a natureza que os sentimentos de amor se sublimaram sempre em mim,foi em contacto com ela que elaborei a maioria das páginas que tenho escrito.” - Ferreira de Castro

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Os livros dos leitores



Este é o seu cantinho.
Partilhe connosco as suas viagens pelos livros !Deixe que outros também descubram o prazer de ler.

Ler é um Prazer (3º ciclo)






MAR ME QUER ,

de Mia Couto
Mar me quer é uma história de amor pelo mar e pelas mulheres. É também uma viagem pelo mundo poético das palavras inventadas por Mia Couto.
Mar-me-quer, Bem-me-quer...







MEU PÉ DE LARANJA LIMA ,
de José Mauro de Vasconcelos
Já imaginaste ter um pé de Laranja Lima no teu quintal? Sim, uma árvore com a qual pudesses falar?Foi isso mesmo que Zezé arranjou, à falta de melhores amigos, até ao dia em que conheceu o Portuga. Uma história de amizade e ternura, que nos faz chorar.






O POETA FAZ-SE AOS DEZ ANOS, de Maria Alberta Menéres
As palavras têm magia. E essa magia pode contagiar-nos aos 10
aos 11
aos 12
aos 13
ou só aos 99 anos
A não perder, para que a descoberta da beleza da vida e do sentido das coisas não aconteça tarde de mais.


ULISSES, A Maldição de
Poseídon, de Sébastien Ferran

Uma adaptação da Odisseia de Homero. As aventuras de Ulisses, o herói das mil artimanhas, e as imagens de tons fortes e contornos bem definidos saídos do lápis de Ferran.Um regalo para os olhos!

SE PERGUNTAREM POR MIM,
DIGAM QUE VOEI
, de Alice Vieira
Na casa do Perpétuo Socorro aparece um vulto, à meia-noite de todas as quintas-feiras de lua cheia, por detrás dos farrapos da cortina de renda branca,. Há quem diga que é um fantasma. Mas um homem que veio de muito longe e que quer apenas levar dali um único objecto, sabe que é o rosto de Joana Ofélia, à procura dos olhos que ele um dia roubou.


HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL
de J. K ROWLING

E se, de repente, descobrisses que eras um feiticeiro, e que o teu novo ano escolar iria ser numa escola onde se aprende a voar numa vassoura, a preparar poções mágicas, a transfigurar objectos e pessoas?! Se sofres do coração, não leias, pois vais ter emoções fortes!



CONTOS, de Eça de Queirós
Uma colectânea de contos escrita por um mestre na arte de bem escrever. Histórias de mulheres, de homens, de heróis, de reis, de santos , de pecadores, de paixões , de milagres, de tesouros, de pecados, de roubos, de riso, de lágrimas, de espanto, de indignação,etc.A descobrir!



COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE,
de Laura Esquível

Um romance mágico, onde os sabores dos cozinhados de Tita se misturam com a sua paixão por Pedro. De fazer crescer água na boca!


ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO,
de António Aleixo
A sabedoria de um homem do povo que nunca foi à escola – Aleixo, vendedor de cautelas, cantor de festas e romarias e improvisador de quadras. Um Poeta com Maiúscula!
“A arte é dom de quem cria
Portanto não é artista
Aquele que só copia
As coisas que tem à vista”



AVENTURAS DE JOÂO SEM MEDO, de José Gomes Ferreira
Tudo começa com um rapaz que resolve saltar o fantástico muro perto da sua aldeia. A partir daí fica por sua conta e tem pela frente a floresta da vida...Desde perder a cabeça (com grandes vantagens) até ter de se aturar a si próprio, tudo enfrenta.É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.



AS AVENTURAS DE TOM SAWYER, de Mark Twain
Tom, um rapaz endiabrado , tem por amigo Huckleberry Finn, um miúdo da rua. Juntos pintam o diabo.Só lendo!



PELO SONHO É QUE VAMOS ... SERRA-MÃE






                                       “ Assim com cousas mudas conversando,
                                           com mais quietação delas aprendo
                                        que outras que há, ensinar querem falando.”

                                                                                        - FAC



Setúbal 

Eis Túbal, cidade antiquíssima, erguida na margem esquerda da foz do Sado, o rio que teimosamente corre ao invés dos demais. Será por ser alentejano?! O avanço das areias obrigou os homens posteriormente à mudança para o lado de cá, criando um importantíssimo porto de mar e pólo industrial. Por entre as suas ruas estreitas e sinuosas como as de um burgo medieval, descobrimos a casa onde nasceu a 15 de Setembro de 1765 Manuel Maria Barbosa do Bocage (Rua Edmond Batissel,nº 10 a 12, antiga Rua de São Domingos).



Abençoado pelos deuses com um grande talento para versejar, a negra vida obrigou-o a desperdiçá-lo em versos pagos para matar a fome que muitas vezes deve ter padecido. Mas quis a Ventura que em “mimos feminis” se fiasse, e assim pudesse legar à nossa literatura poemas inflamados do desejo de “mil deidades (digo, de moças mil)”, eivados alguns do mais letal dos venenos - o Ciúme. Temperamento romântico por excelência, foi na natureza que encontrou o melhor refúgio para os seus encontros (e desgostos) amorosos.



De cima destas penhas escabrosas,
Que pouco a pouco as ondas têm minado,
Da Lua co’o reflexo prateado
Distingo de Marília as mãos formosas.



Ah! Que lindas que são, que melindrosas!
Sinto-me louco, sinto-me encantado.
Ah!, quando elas vos colhem lá no prado,
nem vós, lírios, brilhais, nem vós, ó rosas!

Deusas! Céus! Tudo o mais que tendes feito,
vendo tão belas mãos, me dá desgosto;
nada, onde elas estão, nada é perfeito.

Oh!, quem pudera uni-las ao meu rosto!
Quem pudera apertá-las no meu peito!
Dar-lhe mil beijos e expirar de gosto!





O Brasil, por onde andou, concedeu-lhe honras cimeiras ao oferecer à cidade que o viu nascer a sua estátua, colocada num pedestal na praça com o seu nome, sobranceiro à avenida que tem o nome de uma ilustre cantora lírica aqui nascida – Luísa Todi. Lá no alto, desfrutando o espectáculo do mundo, muito decerto se rirá da mesquinhez dos homens nos tempos que correm. O seu temperamento desbocado não perdoaria certamente o chiste improvisado.

Pela mão do poeta vamos ainda à Igreja se Santa Maria e à Casa do Corpo Santo, sede da Confraria dos Navegantes e Pescadores da Vila de Setúba(1714)l, actual Museu do Barroco.

Arrábida






Serpenteada pelo rio, onde alegres golfinhos surgem a brincar, e pelo oceano, eis que se ergue a Serra da Arrábida, paisagem de beleza agreste, rica pela diversidade ecológica que nela habita. São 10.821 hectares debruçados sobre pequenas praias paradisíacas, como Galápagos e o Portinho da Arrábida, onde se situa a lapa de Santa Margarida, a mais bela dádiva da natureza,e no interior da qual se situa uma capela. Numa prega da serra esconde-se o convento da Arrábida, habitado por franciscanos até à extinção das ordens religiosas pelos liberais em 1834. Aqui viveu em recolhimento Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), contemporâneo de Camões, e irmão do poeta Diogo Bernardes. Desgostos amorosos fizeram-no recolher aos vinte anos na Ordem de S. Francisco e, numa recusa ao mundo vil e cruel, procurou isolar-se ainda mais nesta serra, onde muito embora vivesse em pobreza, era o mais rico dos homens. A natureza, a solidão, o amor a Deus e o gosto pelo estilo maneirista marcam a poesia deste eremita que aqui viveu durante 20 anos, graças a uma autorização especial, e cujas obras permaneceram praticamente inéditas até ao século XVIII.



O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.

Cuidei que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.

Oh! quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!

Quão firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!

Mas se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,

É porque sinto fraco o peito frio.




Vila Nogueira de Azeitão

Aqui nasceu Sebastião da Gama (1924-1952), um jovem professor de Português que faleceu com 27 anos apenas.Alma fraterna e sensível, para quem o importante era amar, introduziu nas aulas um ensino individualizado, tendo em conta as particularidades de carácter de cada aluno, imprimindo neles o amor pela vida e pela poesia, e fomentou as discussões dos problemas, abertamente, no local mais apropriado: a sala de aula.

Andamos no mundo quase todos como se fôssemos desconhecidos uns dos outros: quero Amor, quero a mesa aberta, quero a sinceridade e o abraço.”


A doença que sofria, tuberculose óssea, levou-o a passar grandes temporadas na Serra Mãe, nome com que apelidou a Arrábida e título de um dos seus livros. A serra e o contacto com a natureza revelaram-lhe Deus e toda a sua magnitude. Depois de longa reflexão, o jovem poeta decide converter-se à religião católica e é assim que aos 21 anos comunga pela primeira vez.





O Menino Grande

Também eu, também eu.
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Vida!
não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...


“Quem me quiser amar, que me leve fechado no meu mistério”.